Crônica: o que fica e o que vai com um câncer de mama

Segundo estatísticas, o câncer de mama atinge cerca de 25% de novos casos, a cada ano. Imaginamos que uma boa parte deste número está representada pelas mulheres 60+, que devem ter histórias para contar.

Queremos compartilhar uma com vocês uma crônica.

Ouvi de um jovem universitário, aquariano, sensível e visionário de relações humanas melhores (também acreditamos nisso).

Leiam e verifiquem se o que devemos ou não mutilar é o preconceito!

“Lendo enquanto esperava minha irmã sair do ensaio, fui interrompido por uma jovem senhora, cerca de “cinquenta e poucos” anos. Com uma echarpe de seda na cabeça, fadigada pela caminhada que fez até o assento ao meu lado. Obviamente olhei para ela, que retornou com um sorriso recuperando o fôlego, disse:

– Te atrapalhei, ne?! Continue a ler! Ler faz bem, abre a mente amplia a visão de vida!
Apesar de interessado na leitura, tentei ser educado e gentil dizendo:

– De forma alguma! A senhora está bem?!
– Sim, sim! Apenas cansada devido a um tratamento que venho feito nos últimos meses. Aí atividades que antes me eram simples, passam a ser exaustivas! – disse ela AINDA sorrindo!

Respondi:

– Apesar de não saber como é, posso imaginar como seja!

Achando que encerraria ali, a senhora cujo erro cometi em não perguntar o nome, começou sua aula de vida:
– Mas tem coisas que conseguem ser ainda piores e exaustivas! Eu por exemplo, era tão apegada às minhas coisas, minha vaidade excessiva, aos meus bens, as coisas materiais sabe? Que precisei adoecer pra saber que, até andar era uma riqueza que tinha. Aliás, que eu ainda tenho! Não morri né?! To viva! Vivíssima! – gargalhamos os dois!

Fechei o livro e ela continuou:

– A gente passa a analisar tudo por outra escala de valores, outra escala de prioridades, sabe como?! Não! Você não vai saber! Por isso que eu To te falando agora! Tive um câncer nos seios. 26 anos casada, meu marido me ajudou muito durante o tratamento, apesar do nosso casamento ser teatral! O máximo! Mas precisei fazer mastectomia… E retirei os dois seios!

Nessa hora, eu forcei os meus olhos a continuarem nos dela. Chegaram a arder, mas mantive para evitar o constrangimento para ambos!

–  Aí eu boba…SABE DE NADA INOCENTE! (Rimos) fui procurar o meu marido, na tentativa ridícula de recuperar alguma coisa que não tínhamos. Isso eu digo “NÓS”, EU e ELE! Pois ELE tinha, fora de casa! Estávamos indo bem até ele tirar meu soutien e pela primeira vez me ver sem seios… Ele parou, travou! Disse que não conseguia e não quis me tocar mais. Logo depois ele pediu o divórcio. E eu sofri menino! Nossa,como eu chorei! Mais até que da própria doença, horrível! E aí, tudo o que eu tinha me apegado foi o cansaço maior, para me desfazer! Literalmente, me desfazer!

(Disse ela apontando para os seios, que no aproveito do momento, olhei rapidamente e percebi soutien de enchimentos.)

Continuou…
– Mas hoje, saindo de mais uma consulta de controle, eu estava pensando que na verdade, foi uma impotência DELE e não minha. Apesar de tudo fui uma esposa dedicada e companheira. E antes eu sabia pelo que sofria mas agora não faço nem ideia do porquê! Estranho né?!

Acredito que a minha reação era, olhos arregalados, pernas cruzadas e os três últimos dedos sob o queixo. Respirei fundo e respondi com outra pergunta:

– A senhora se sente culpada?- prontamente ela finalizou esse UFC de vida dizendo:

– NÃO! O meu casamento, não era baseado nos meus seios e em mim, se o câncer fosse nele, e ele tivesse que se “pênisctomizar” (riu) eu não o abandonaria! Como eu disse, é uma incapacidade dele e não minha! Assunto pesado né?! Bem… Tenho que ir. Desculpe o incomodo. Mas não pare de ler! Tchau, até mais!”

Se você leu até aqui, espero que esse aprendizado cause em você, o mesmo efeito que causou em mim! Não vou escrever a interpretação que tive disso, pois ela é minha. Que você tenha a sua!

Luan Romannoff

email: windluan@hotmail.com

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